terça-feira, 17 de dezembro de 2024

A letter to 'Carla'

 ❣ But there's nothing else I can really do at all

      Esta aqui é uma carta aberta a minha pessoa favorita - que infelizmente se foi.
      Mamãe,
      Nunca imaginei estar passando por esse momento tão cedo - e de forma tão abrupta. Há exatos 56 dias atrás, eu fui obrigada e me despedir de você. Para sempre. Lembro como se fosse ontem da vontade de vomitar e da sensação de algo sendo arrancado de dentro de mim, que senti quando meu pai abriu a porta do meu quarto de madrugada para dar a pior notícia que eu poderia receber. Você tinha falecido. 
      Não me parece real ainda, nunca vou me acostumar com a ideia de que você nunca mais vai voltar. Sei que não é o momento de querer desistir de tudo, mas é a coisa mais difícil do mundo eu ter que seguir minha vida normalmente e lembrar toda hora que eu nunca mais vou te ver. Só de imaginar que eu vou ter uma vida inteira pela frente sem você eu me desespero.
     Uma das coisas que eu mais gostava de fazer era te observar do meu banco no carro quando a gente viajava. Ou quando eu chegava da escola e ia ficar enchendo seu saco no escritório enquanto você trabalhava. Nosso, como eu amava isso.
      Me sinto tão honrada de ter sido sua filha. Eu tenho certeza que fui a pessoa mais sortuda do mundo por ter tido a chance de conviver com você todos os dias durante esses 17 anos.
     Agora entendo a sua danação em tentar impedir a gente de sair todo final de semana - acho que, analisando tudo, você já previa esse dia chegando mais cedo do que a gente poderia imaginar... e você só queria aproveitar a gente.
     Não me canso de falar para as pessoas o quanto você tinha a alma evoluída -  e acho que esse também foi um dos motivos que te fez ir mais cedo. Mas quando que é a hora certa? Eu digo que a senhora foi mais cedo porque não estávamos preparados e também porque eu nunca quis ter que sentir essa dor. E dói, meu Deus, como dói.
      Eu falava para mim mesma: "quando a minha mãe morrer, eu COM CERTEZA vou me matar" e olha eu aqui. Não fiz isso. Não fiz porque isso não ia adiantar nada, ia ser egoísmo da minha parte e porque você sempre quis me ver conquistando tudo aquilo que eu queria. Você sempre fez muitos planos, sempre sonhou muito e sempre correu atrás de realizá-los, independente da situação - o que sempre admirei em você -, porque você sabia que só dependia de você e a senhora nunca duvidou do próprio potencial.
      Eu tive você, a pessoa que era um exemplo para todo mundo, como minha própria mãe. Todos os melhores ensinamentos que eu tive nessa vida, foi graças a você. Eu gostaria de ser capaz de lembrar da senhora sem chorar, mas é impossível. As coisas realmente não vão ser as mesmas daqui pra frente. 
      Uma vez me disseram que, nós, seres humanos, não fomos programados para superar o luto, porque nem fomos feitos para perder pessoas que fizeram parte da nossa vida - e é por isso que sentimos aquela sensação de estar resetando o tempo inteiro durante os primeiros dias. E foi exatamente assim que eu me senti - principalmente no seu velório. Você acorda, lembra, chora, passa, faz suas coisas, lembra de novo, chora de novo, passa de novo... e ficamos nesse ciclo até que a ferida se cure. Meu medo é de que essa ferida nunca se cure.
       E daí, com esse medo meu, lembro de todas as vezes que eu me machucava e você vinha cuidar das minhas feridas. Mas cadê você agora?
       No seu velório mesmo eu ansiava por esse colo, por esse carinho e amparo - que você sempre fez questão de dar para gente e que você sempre se certificou de que tínhamos certeza do quanto éramos amados por você -, mas eu olhava para frente e via você deitada, descansando.
      Quando penso na vida de forma geral, eu só penso em vivê-la intensamente e sem arrependimentos, assim como a senhora sempre fez - desde que era uma adolescente que reprimia o sonho de ter uma família, de ser mãe, apenas porque tinha receio de nunca ser escolhida e amada por ninguém. 
      E apesar dos seus medos, você viveu tudo que queria viver - outra coisa que quero me inspirar - e não deixou de fazer nada em vida. Cê tem noção que você fechou os dois antebraços, de tatuagem, no mesmo dia??! Você estava tão feliz com isso... - a primeira messy girl do mundo.
       Isso me conforta, inclusive, sabe? Ter a noção de que você sempre fez o que queria fazer, sem nada te prendendo. E é assim que eu quero ser daqui para frente. Quero seguir seu legado gigante que ficou. Quero levar seu nome e sua história comigo para onde eu for. 
       Eu tenho tantas coisas para falar ainda, mas nunca vou saber exatamente colocar em palavras esse sentimento. Um segundinho a mais com você já seria suficiente.
       Lembro de uma vez que você teve que viajar para São Paulo a trabalho, e lembro exatamente do tamanho da saudade que eu senti. Você ficou três dias fora de casa, mas para a gente pareceu uma eternidade. 
       E agora, a saudade que eu tô sentido se parece com essa sentida há 6 anos atrás - exceto pelo fato de que você não vai voltar. Eu fico torcendo para a hora que você vai entrar pela porta da sala e vai nos contagiar com seu sorriso e risada. Mas isso não vai acontecer. Nunca mais.
       Todos nós estamos sentindo sua falta: eu, bibia, papai, vovó e - acho que principalmente - o Elvis. Você não faz ideia do tanto que ele está sentidinho. Para você ter uma noção, mamãe, meus amigos até hoje dizem que não conseguem acreditar que você se foi. Todas as suas migles - assim como você as chamavam - estão sem chão até hoje. Você é essencial na vida de muita gente, mamãe, e vai fazer muita falta.
       Eu te amo mais do que tudo nesse mundo e meu maior sonho sempre foi ver você e o papai envelhecendo lado a lado. Esse sonho, nunca vai se realizar, mas ainda tenho outros os quais sonhamos juntas.
       Obrigada por tudo, mamãe. Sempre vou te amar.







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